Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia
(…)
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
(…)
Carlos Drummond de Andrade
Música e memória sempre caminharam juntos em minha vida. E penso que na de muitas pessoas. Assim como o famoso biscoito de “madelaine” de Proust. Um acorde, um trecho dessa ou daquela música subitamente traz lembranças a tanto esquecidas. Nem sempre boas.
Isso ocorre, é claro, com muitas coisas diversas que a música. Mas a música é algo que traz isso muito forte. Penso que mais que crônica ou poesia. A música tem um agente emocional muito mais concentrado, mais livre do intelecto. Pode-se ouvir uma música sem ouvi-la: a atenção pode estar em outro lugar e, de repente, aquela música, daquela noite, daquele rosto invade a mente. Disparando lembranças, cheiros, gostos, imagens.
Muitas vezes isso não ocorre apenas com uma música em particular. Ocorre com um disco inteiro, por exemplo. Um dos discos que gosto e tenho dessas lembranças (boas ne sse caso) é do disco Quarteto Jobim-Morelembaum. O quarteto, formado por Jobims (Paulo e Daniel), conta com a voz suave e delicada de Paula Morelembaum e do monstro do violoncello brasileiro Jacques Morelembaum. Os standards de Tom estão todos lá: Corcovado, Meditação, Desafinado, e também algumas mais posteriores como O Boto e Mantiqueira Range.
Essas músicas em si estão em minha mente com diversos arranjos e intérpretes. É provável que Corcovado e Meditação possuam juntas centenas de gravações diferentes. Mas essas gravações do Quarteto estão na minha memória de forma tão permanente, instantes parados no ar e no tempo. Cada nota um toque, um olhar diferente, um universo. Exatamente vívido como ficou durante o show ao vivo que assisti há tantos anos. Aliás, com um solo ao cello do Jacquinho de Retrato em Branco e Preto – que não está no álbum – monstruoso. Um domínio completo da técnica sem deixa-la ultrapassar a sonoridade que Jobim exige: nada de exibicionismos atléticos. A técnica a serviço da música.
E esse universo esteve recentemente tão perto que deu vontade de ter saudades. Um telefonema a mais, uma frase a mais, um sorriso ao telefone a mais, uma reserva a mais. Para saber se aquela aquarela toda ainda está lá, intocada, vívida e radiante como quando nos afastamos. O bom da memória involuntária – que Proust retratou tão bem em sua Combray – é ser tão incontrolável quanto impiedosa. Me contive.
No final das contas resta saber se algum dia terei de volta o álbum do Quarteto Jobim-Morelembaum apenas como música, livre dessas lembranças, enlaces e desenlaces. Improvável. A emoção é mesmo o cimento da memória. Proust já provara isso há cem anos atrás. E já que até aqui só falei de coisas pessoais – logo, fúteis – acrescento outra: é bem provável que Em busca do tempo perdido seja mesmo a principal obra em prosa do século XX, passando por cima de muita gente importante. Mas o que está agora na memória é uma trilha só:
É, você que é feita de azul,
Me deixa morar nesse azul,
Me deixa encontrar minha paz,
Você que é bonita demais.
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você,
Você sempre foi só de mim.
(Tom Jobim/Alysio de Oliveira)
A felicidade é uma pluma que o vento vai levando pelo ar de Cumbica.