Lembro-me até hoje do dia em que minha mãe disse: “está na hora de você começar a aprender a fazer coisas de escritório. Senta naquela cadeira em frente à máquina de escrever!”.
O escritório dos meus pais ficava na rua Rui Barbosa, em Campo Grande. Todos os dias de manhã eu acordava irritado por ter de trabalhar (justo aos 13 anos!) enquanto meus amigos estavam dormindo, com certeza. O escritório ficava em uma casa antiga, de esquina. Um piso de tacos igualmente velhos revesava em áreas mais comuns com um piso de cerâmica pequeno, hexagonal. A máquina de escrever estava lá: brilhante, com seu teclado em 4 níveis, mecânico, imponente. Rescendia um leve cheiro de óleo Singer.
Minha mãe pegou uma folha em branco e escreveu nessa folha, com letras grandes, as letras da “carreira-guia”: ASDFG para a mão esquerda, ÇLKJH para a outra. “Leia aqui e nunca olhe para o teclado”. Volta e meia os dedos escorregavam entre as teclas superiores. Era dolorido e irritante. Por outro lado, adorava o barulho que a tecla de “maiúsculas” provocava no interior da máquina, subindo e levantando as astes que iam ferindo de tinta o sulfite.
A despeito de inúmeras reclamações e impaciências, aprendi a datilografar (hoje as pessoas dizem “digitar”) corretamente: sem olhar para o teclado, com todos os dedos em perfeita posição. Mínimo de 180 toques por minuto, com no máximo três erros por A4. Naquela época, digitou estava impresso. Não tinha “delete” nem “ctrl-Z”. Hoje sei que digito acima de 220 toques por minuto, mas parei de medir há muitos anos.
Não sei porque as letras no teclado possuem essa distribuição maluca. Já ouvi muitas (e)histórias sobre isso. No fim, todos reclamam que as teclas deveriam ser em ordem alfabética. Mas em que isso ajudaria, se escrever não é uma sequência alfabética? Até onde sei a palavra “abcdefg” não faz parte do português. Esses dias meus amigos, numa brincadeira, trocaram o “m” com o “n” de lugar do teclado do meu pc. Só percebi muito depois, quando eles desistiram e entregaram a malandragem. Tinha orgulho de ter em casa um teclado de PC tão gasto que os nomes das teclas haviam sumido. Para muitos hoje em dia, mais difícil de invadir que o banco de dados do Banco do Brasil.
Aquela velha máquina de escrever datilografou muito orçamento. Mas também datilografou poemas, textos tolos, letras de música, trabalhos escolares. Minha professora de português uma vez deu-me um croque por ter datilografado o trabalho: “Era para você fazer, não sua mãe!”. Não consegui convencê-la que eu mesmo havia datilografado.
Após aprender a datilografar, vieram outras tarefas. Muitas delas cumpridas com dificuldade pela minha pouca idade. Quando ia a órgãos públicos levar ou buscar documentos nunca era levado a sério. Tive que aprender a me impor, apesar do rosto muito novo e da voz de timbre vacilante. Essas experiências, no início tão aborrecidas e sem nexo, sem que eu percebesse moldaram em minha personalidade. Logo cedo adquiri um entendimento que colégio nenhum poderia me dar. O entendimento de como se relacionar com pessoas em um lugar profissional.
Nâo só isso: elas ajudaram a moldar meu caráter e aprender a reconhcer, só pelo comportamento, o joio e o trigo do mundo “lá fora”. Um aperto de mão firme, olho no olho, abre muito mais portas – e conta muito mais sobre a pessoa – do que títulos acadêmicos e sobrenomes. A franqueza e a firmeza de espírito é algo que se aprimora fora de casa, mas a obrigação de aprender vem de dentro.
Meus pais já tiveram diferentes tipos de negócio. Representação comercial, manutenção de móveis de escritório, fornecimento de materiais de escritório para o Estado, arquivos deslizantes. Participei de todos, mesmo trabalhando mais tarde em outros lugares. O mais importante de todas essas experiências foi aprender como me comportar frente a situações difícieis ou decisivas.
E, acima de tudo, a aprender que o valor de uma pessoa não está no dinheiro que ela concentra. Mas na experiência humana que ela compartilha com seus próximos. Em saber ter calma e humildade no momento certo, e saber ser arrogante e sedento no momento certo. Aquela força interior que cara feia alguma pode abalar.
Ainda bem que minha família não pôde (e não quis) me dar uma vida confortável, segura e estável demais. Protegido de bactérias dentro das bolas de cristal delicado que hoje damos o nome de “apartamento”. Isso com certeza também teve suas conseqüências negativas. Alguma vez já viu uma moeda com menos de 3 lados? Mas nada como chegar aos 18 anos com 5 anos – cruciais – de combates e cicatrizes, já sabendo, se não o valor da vida, o valor do dia.
E tudo começou com uma carreira-guia: ASDFG ÇLKJH.
Olha só estou escrevendo pra dizer que eu li. Porque eu realmente estou sem palavras…