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A fuga (engraçadinha) do pensamento

Nâo lembro onde, exatamente, li que “contra a piada não há argumento”. Essa frase sintetiza bem uma situação que está cada dia mais presente em todos os lugares.  Explico: sempre quando um assunto mais complexo entra em pauta em uma conversa, cada vez mais as pessoas “fogem” do assunto. Normalmente com alguma piada de momento, seguida de um riso rápido. O que o eu chamaria de “engraçadinho”, mas no fim é só “ignorante”.

Quem me conhece, sabe bem que não sou contra piadas sobre qualquer assunto. Mesmo que a piada seja até “de mau tom” para o instante. Adoro piadas de mau tom. As que mexem com as pessoas e suas crenças. Em suma: não me apego a dogmas e religiões. Mas o que ocorre é que após aquela piadinha, nenhum argumento é inserido na conversa. Mesmo aquela piada, em si, não é um argumento. Nenhum fato novo. Nada. Ou seja: cada vez mais livram-se de pensar ou de questionar-se, escondendo-se sob piadas que dão aquela impressão que a pessoa “sabe de alguma coisa mas é ocupada demais para dizê-la”.

Ok. Pensar não é obrigação de ninguém. E ninguém é obrigado a expor o que pensa. Mas não é esse o foco desse texto: o foco é que as pessoas, paulatinamente, tornam-se mais vazias, de convivência mais superficial. Seja por não oferecer seu ponto de vista ou por não se abrir a um diferente. Ou de aprender mais sobre um determinado assunto. (Aprendi em casa, cedo, que aprender é um ato de generosidade. Mais do que ensinar). Um reflexo e/ou combustível desse processo de vazio é a arte que é massivamente consumida: cada vez mais expositiva, cada vez menos argumentativa, passando uma mensagem mais mastigada, mais resumida e fácil. E isso se aplica a todos os assuntos abordados.

Conversando com um amigo que gosta de rap, pedi a ele uma letra de música que ele realmente gosta. Uma que ele considere uma letra fantástica. Ele me enviou um link e eu a li atentamente. A temática da música – pobreza e revolta – é agora o que menos interessa. O que interessa é o não uso de sequer um recurso de linguagem que requeira um mínimo de fosfato para entendê-la. Intelectualmente o texto da letra não oferece nem proposição de solução do contexto (o que já seria algo, mesmo que na visão particular do compositor) ou de recurso poético, de figura de linguagem, etc que traga algum prazer estético ou intelectual. E que permita que eu tenha um entendimento e que outra pessoa tenha um diverso. Esse recurso de linguagem não precisa falar de “rosas e paisagens”. Poderia continuar falando de tráfico, violência e miséria, mas ainda assim seria algo a se destilar, a se aproveitar. E que poderia, sim, ajudar a montar o quadro, a mensagem que o rapper deseja para sua, vá lá, canção. Mas não é implicância com o rap, não. O mesmo se verifica nas canções da música sertaneja (ou seja lá o que aquilo for, pra mim é bolero), pagodes, forrós e etc. A falta de inteligência nas letras de música atual não escolhe gênero nem classe social. E essa ausência exercita a incapacidade de interpretação e gosto pelo texto rico nas figuras de linguagem citadas. Um texto de Drummond, Yeats ou Pound vão ficando exponencialmente inacessíveis.

A falta de interesse generalizada pela conversa argumentativa e inteligente pode estar também enraizada na forma super-especializada sob a qual nos formamos. Têm-se a cada ano uma formação profissional mais especializada em determinadas áreas. Daqui a pouco teremos designers tão especialistas que só saberão operar o mouse, pois será especialista nisso. Para operar o teclado, ele precisará da ajuda de um segundo profissional, especialista em teclados. Todos sabem muito sobre muito pouco. E essa formação super-especializada gera pessoas de alta competência profissional e de completo analfabetismo social, cultural e histórico. Incapazes de aproveitar e de acrescentar riqueza humana à sua própria vida e às pessoas próximas que ama.

Em uma conversa com um amigo, recentemente, ele me disse que saber de literatura não pagava o seu salário. Talvez por isso ele não saiba a diferença entre romance e novela. Nem é capaz de saber que um romance pode não ter romance e novela não precisa ser necessariamente na Globo. Ele é especialista no que faz. No que faz.

O círculo do que é considerado “papo difícil”, “música difícil”, está ampliando velozmente. O vazio e a inércia mental cada dia mais dominante. Isso é algo triste, pois vai-se esvaziando as relações humanas, estreitando-as a um âmbito mais pobre, rasteiro. E o que é pior: de consciência cada vez menor, deixando-nos mais suscetíveis ao erro, à ilusão social. A preguiça mental é tão nefasta e sedutora como a preguiça física. Espero que você – e eu – pensemos duas vezes antes de encerrar um assunto com uma piadinha de senso comum. Ou que, pelo menos, após a piadinha possamos tentar um ângulo novo, um argumento a mais, uma discordância a mais. Afinal é a partir do contrário, do conflito que surge o novo. Esse processo de surgimento do novo pelo prazer da argumentação saudável é, enfim, um dos maiores feitos do homem e, talvez, a única coisa que realmente o diferencia dos outros animais.

Desejo sinceramente que a omissão do risco de pensar seja banida. A opinião falha ou risível é muito mais importante que a fuga covarde do pensamento. Desejo que um dia eu possa, enfim, reencontrar o prazer de argumentar, de discutir idéias (f)úteis, sem que essas terminem subitamente com uma piada de risinho fácil, mudo e sórdido.

9 Responses to “A fuga (engraçadinha) do pensamento”

  1. Fernandinho Beira Mar - Osasco says:

    Como vc pode falar mal du rap, vc é doidão? Eu se divirto muito com o Rap, ele só fala a verdade do lugar onde vivemos, vc como é prayboy num tá ligado de como é a realidade do mundão, foi criado na base do sustage e leite ninho e mora no asfalto. Vc é o maior comédia. Seu fumaça.

  2. Pedro Paulo says:

    Malz aí, mano.

  3. prayboy? o que é um prayboy? um coroinha?

  4. RAP – Rest and Peace?

  5. Pedro Paulo says:

    Boa, Wilians!

  6. Claudia Bonanato says:

    PP, é amigo, esqueceu de comentar que as pessoas que apreciam discutir idéias cada vez mais são vistas como pessoas chatas. Para ser socialmente aceito, hoje, deve-se ser superficial. Triste, mas um fato. Sorriso vazio e cerveja na mão.

  7. Lígia says:

    Pois é meu irmão, infelizmente as pessoas estão cada vez mais covardes em ser humanos(seres evoluídos com incrível capacidade de raciocínio e liberdade de escolha). Elas simplesmente aceitam aquilo que lhe é imposto sem nenhum questionamento por pura preguiça e acham isso completamente normal!
    Uma vez uma grande sábia me disse que covardia é a preguiça de sentir coragem. Isso é a pura verdade!

  8. Akira says:

    Não chore emo!

  9. Pedro Paulo says:

    Eu também te amo japa.

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